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Mudança de mindset e propósito de vida em Blade Runner

Blade Runner e Blade Runner 2049

Amo cinema, mas sempre existe um clássico ou outro que deixamos de assistir por algum motivo. Ouvi falar muito de Blade Runner, e o engraçado é que eu amo filmes, séries, livros de futuro distópico, cyberpunk, com crítica à sociedade atual e com finais em aberto. Ainda assim, fui assistir o filme de 1982, dirigido por Riddley Scott, somente este ano. Na semana passada para ser mais exata e achei incrível a quantidade de reflexão que esse filme, e o novo, trouxeram. Em Blade Runner 2049 não pude deixar de notar o que uma mudança de mindset e propósito de vida trouxeram para K: Liberdade.

Sobre os filmes e seus questionamentos

Replicantes. Réplicas dos humanos, criados em laboratório, enviados à outros planetas para fazer o serviço que nenhum humano quer fazer. São os novos escravos. As atualizações foram os deixando cada vez mais fortes e espertos. Replicantes NEXUS 6 começaram a desenvolver emoções, até que foi necessário fazer um ajuste para que o tempo de vida deles durasse apenas quatro anos, devido ao surgimento de rebeliões.

Quatro deles escaparam do planeta onde viviam e foram para à Terra tentar encontrar o seu criador esperando prolongar o seu tempo de vida. Blade Runner é quem tem autorização para caçar esses replicantes e os “aposentar” para que não causem mais distúrbios. Deckard (Harrison Ford) é um blade runner que foi convocado para aposentar esses quatro fugitivos.

Os filmes, dentre muitos outros questionamentos, nos fazem pensar sobre o que realmente é ser um humano? Os replicantes não são considerados humanos por não possuírem alma. Mas o que é alma? Por serem desenvolvidos com biotecnologia e não nascerem do ventre de uma mulher isso significa que não tem alma? Que não deveriam ter emoções e que não deveriam tentar lutar por suas vidas?

Replicantes mais humanos que os próprios humanos

replicant-roy-batty

A partir daqui devo dizer que terão SPOILERS dos filmes no texto.

Roy Batty veio para a Terra para tentar desesperadamente prolongar o seu tempo de vida. Ao encontrar o seu criador, descobriu que nada poderia aumentar a sua existência nesse mundo. Seu monólogo final deixa claro como a vida é efêmera.

Ao final de Blade Runner, o replicante Roy Batty, que estava perseguindo Deckard e que teve claramente a oportunidade de matá-lo, ao sentir que sua vida estava chegando ao fim, decide salvá-lo. Por que? Será que ele quis dar a Deckard a chance de viver mais? Chance essa que ele mesmo não teve. Ele sentiu empatia? Ele valorizava sua vida mais que nós humanos valorizamos as nossas? Foi uma maneira de mostrar que ele também valorizava a vida de Deckard (e de outros) ?

Quanto nós valorizamos as nossas vidas? Quanto nós somos gratos por ela? E se tivéssemos ciência do tempo que nos resta, como iríamos agir? Nós cuidamos de nós mesmos? Nos importamos com os outros? E com o mundo? Como estamos tratando o nosso planeta?

Blade Runner 2049

Apesar do filme de 1982 ser o clássico e eu ter amado todo o design (li que é neo-noir, nem sabia que isso existia), e de ter me feito pensar muito, o segundo filme da série, lançado em 2017, me deixou muito mais intrigada e me fez refletir muito mais.

Blade Runner termina com Deckard fugindo com Rachael, uma replicante por quem havia se apaixonado, e que era de uma geração nova, por isso não tinha vida limitada. Ficou em aberto a seguinte questão: Deckard é ou não é um replicante também?

O filme novo mostra que Deckard e Rachael tiveram uma criança. Ela morreu no parto e ele desapareceu, sem deixar rastros, para que nunca encontrassem seu filho. Deckard, antes de desaparecer, fez questão de encobrir e embaralhar todas as pistas para que nunca descobrissem quem era seu filho.

K, dúvida e liberdade

K, interpretado por Ryan Gosling, um policial da mais nova e perfeita geração de replicantes, era praticamente indestrutível. Essa nova geração fora criada completamente conformada com sua existência. Sabiam o que eram e para que serviam. Muito mais fortes, resistentes, inteligentes e obedientes. Não havia falha nesse sistema. Não era possível mentir ou desobedecer ordens.

No começo do filme é descoberto que uma replicante havia dado à luz. Isso, até então, era algo inconcebível. Replicantes não eram férteis, e se começassem a se reproduzir poderiam facilmente se rebelar e acabar com os humanos. K foi o policial designado para encontrar a “criança” (de 30 anos) e dar fim à sua vida.

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Durante sua busca, pistas o levam a pensar que ele próprio era o filho da replicante Rachael com Deckard. Conforme sua certeza vai crescendo, suas atitudes vão mudando. Ele começa a mentir e a desobedecer ordens para seguir as pistas. Seria ele essa criança do milagre? Se ele fosse um humano e não um replicante, não teria que obedecer ordens, não teria que viver da maneira imposta, poderia ser livre.

SPOILER SPOILER ALERT

Ao finalmente se encontrar com Deckard, ele não o mata, apenas conversa para obter respostas. Descobre que o filho de Deckard e Rachael na verdade é uma menina, portanto jamais seria ele. Se ele não era a criança do milagre, como então ele, um replicante, poderia ter feito tudo o que fez? Mentir, desobedecer, sentir emoção e curiosidade?

Propósito de vida

O filme novamente termina com um replicante salvando a vida de Deckard. Por que ele fez isso? Eu acredito que foi porque, mesmo sem ter ciência disso, Deckard deu a K um propósito de vida. K pôde sentir o que era viver de verdade. Ele sentiu tristeza, sentiu alegria, sentiu amor e teve esperança. Quebrou todos os paradigmas e viveu apenas por ele mesmo, pelo seu objetivo, seu propósito de vida.

Ele conseguiu mudar a forma de pensar. Ele fez uma mudança de mindset, pois ele tinha um objetivo muito claro: confirmar que ele era aquela criança, aquele milagre. Ao surgir essa dúvida, ele fez tudo o que precisava para atingir seu objetivo. Ele reestruturou o seu cérebro. Quando K descobre que ele não era filho de Deckard ele entende que, mesmo sendo um replicante, ele é o responsável pelas decisões que toma. Ele tem escolha. Ele tem livre-arbítrio.

Culpa, mudança de mindset e propósito de vida

Quantas vezes nós agimos como o K replicante? Aquele tipo que deixa a situação em que está tomar conta da vida? “É assim porque tem que ser assim”, “um dia vai melhorar”, “a culpa é de fulano ou ciclano”, “não posso mudar por causa de tal coisa”. Eim ? Quantas vezes? Culpamos os pais, os chefes, o governo, os deuses e qualquer outra coisa para não assumirmos a responsabilidade pelas nossas escolhas.

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Física quântica, programação neurolinguística, atenção plena e várias outras técnicas e conceitos estão aí, com vários estudos que comprovam que você pode e deve ter o controle da sua vida. Você é quem toma decisão, e você é o responsável. Haverão momentos mais difíceis que outros, e alguns muito, muito difíceis, mas ainda assim você, humano ou replicante, sempre terá a liberdade de fazer escolhas.

Deixar de culpar os outros, mudar o seu mindset, seus hábitos, e descobrir seu propósito de vida é fácil? Nem um pouco, mas sei que quanto mais a gente aprende sobre nós mesmos, mais fácil vai ficando. Espero que todos nós possamos nos transformar no K do final do filme no decorrer de nossas vidas, e que não seja preciso esperar até o último suspiro para mudar. Apenas viva!

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